O velho dizia que as montanhas de Bashan se estendem além do horizonte, vastas e infinitas, abrigando incontáveis ervas medicinais e miríades de aves e feras selvagens. Bastava ter mãos diligentes, coragem e atenção aos detalhes para colher frutos do trabalho, garantir alimento, vestimenta, e desfrutar de uma vida próspera e confortável. Mentiras, tudo não passava de mentiras! Renascido para reviver sua trajetória, Chen An sabia agora com clareza: não há abundância nas montanhas, tampouco existe dia de descanso. Trilhando novamente os caminhos de caçadas e coleta de ervas, Chen An estava decidido a transformar seu ofício secundário em algo grandioso! Naqueles anos, tijolos da dinastia Qin e telhas da dinastia Han erguiam chiqueiros de porcos... Naqueles anos, figuras furtivas guiavam cães-lobo pelas profundezas da serra... Naqueles anos, incontáveis lendas ainda permeavam as montanhas... Esta é uma jornada marcada pelo sangue e pelo vigor. Caçar, coletar ervas, cultivar a terra, criar filhos, buscar tesouros... E ainda há aquele panda — que, de fato, não é um animal de estimação! (Sem poderes especiais, com ênfase no cotidiano; leia com cautela!)
Montanhas de Bashan, águas de Shu.
Montes Micang.
Ao amanhecer, a névoa pairava espessa sobre as montanhas, preenchendo todo o vasto vale e formando um grandioso mar de nuvens.
A casa, situada a meia encosta, assemelhava-se a uma solitária embarcação perdida no oceano, flutuando sozinha sobre o mar de nuvens.
Naquele mar nebuloso, feras e aves selvagens já cedo buscavam alimento, enchendo o ar com seus múltiplos clamores.
O grunhido vinha do javali, o grasnar, do corvo...
Chen An postava-se sob o caqui à porta de casa, escutando os sons que vinham da floresta, e lançava o olhar ao longe, onde só avistava montanhas, nada além de montanhas.
Picos erguiam-se em camadas, recortando o horizonte, infindos e inumeráveis.
Tudo aquilo, para Chen An, era tão familiar, e, entretanto, revestia-se de uma estranha sensação de estranhamento.
Era um lugar profundamente gravado em sua memória, mas que, passados mais de quarenta anos, tornara-se inteiramente diferente.
Jamais imaginara que, após uma noite de vinho para acalmar um peito inquieto, ao sair de casa em sua tricicleta elétrica para um hotel na vila, onde virou algumas porções de bolinhos, ao despertar, encontraria-se novamente, no corpo de seus dezenove anos, deitado no quarto que há tanto habitava em suas lembranças.
Ao sair para fora, fez questão de passar pela sala e espiar o calendário novo, recém pendurado na pilastra junto à porta, com poucas páginas arrancadas: 21 de janei